Júri desvenda uso do Pegasus por ex-presidente do México

Da Redação
06/12/2023

Teve início na segunda-feira, 4, em um tribunal da Cidade do México o julgamento sobre o uso do software Pegasus pelo ex-presidente Enrique Peña Nieto, que governou o país de 2012 até 2018, para espionar ativistas anticorrupção, advogados, políticos e até o empresário bilionário Carlos Slim.

O Pegasus é um software de espionagem altamente sofisticado, capaz de monitorar praticamente toda a atividade do celular, desenvolvido pela NSO Group, empresa israelense que diz comercializar o programa apenas para autoridades policiais.

No México, são conhecidos 22 casos do uso do software e, entre as vítimas, está a jornalista Carmen Aristegui, que teria sido espionada pelo governo de Peña Nieto. Ela é a primeira testemunha em um julgamento extenso com um grande número de supostas vítimas. Pode durar meses, segundo reportagem do jornal espanhol El País.

O caso mexicano envolvendo o Pegasus se concentra na forma como o potente spyware foi usado para vigiar milhares pessoas em várias administrações presidenciais mexicanas, segundo o El País. O Pegasus oferece aos usuários a capacidade de ver o conteúdo do telefone de uma vítima, bem como ativar sua câmera e microfone para espionagem em tempo real, de acordo com especialistas em privacidade.

Campanhas de spyware lideradas pelo governo abalaram a Europa nos últimos anos com grandes incidentes,  incluindo suposta espionagem do governo a políticos da oposição na Polônia e  um jornalista para citar dois dos muitos incidentes que se estenderam pela Grécia, Espanha e Hungria, entre outros países.

Uma testemunha-chave da acusação — um denunciante conhecido como Zeus — disse ao tribunal na segunda-feira que Peña Nieto e sua equipe ordenaram a espionagem da jornalista, bem como de Slim e do magnata da mineração Germán Larrea, de acordo com o El Pais.

Peña Nieto não é o único político mexicano envolvido no escândalo. Uma  investigação recentemente concluída pela Digital Rights Defense Network mostrou que, durante a atual administração, de Andrés Manuel López Obrador, agências governamentais também usaram o Pegasus para espionar ao menos três pessoas. O jornalista mexicano Ricardo Raphael e o ativista de direitos humanos Raymundo Ramos, entre as supostas vítimas.

Carmen Aristegui é uma das principais jornalistas do país, conhecida por suas reportagens críticas ao governo — foi uma das poucas vítimas a pressionar por um julgamento, informou o El País. Segundo o jornal espanhol, na segunda-feira, ela exigiu justiça, dizendo esperar que a Procuradoria-Geral da República tenha “elementos suficientes para esclarecer o caso”.

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No início do governo Peña Nieto, a jornalista e sua equipe de investigação relataram suposta corrupção entre o presidente e sua equipe, publicando uma reportagem sobre a relação entre o presidente e um conglomerado empresarial. De acordo com o El Pais, a história se concentrou na compra uma casa no valor de US$ 7 milhões pela mulher de Peña Nieto, Angélica Rivera. O imóvel teria sido vendido por um empresário acusado de favorecimento em licitações do governo.

Após a publicação da reportagem, o Pegasus foi usado para monitorar o telefone de Aristegui, alegam os promotores. A jornalista descobriu milhares de documentos sobre o uso do Pegasus para atingi-la, informou o jornal espanhol. O delator, Zeus, era a fonte de Aristegui. Ele relatou que a espionagem foi executada pelo grupo empresarial KBH, um fornecedor do Pegasus no México. O homem que supostamente supervisionou a espionagem, Juan Carlos García Rivera, era funcionário de uma subsidiária da KBH. Ele pode pegar 16 anos de prisão por seu papel no esquema, de acordo com o El Pais.

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